Entrevista Rogério Pietro


 Sobre o autor

Rogério Pietro tem formação na área científica e acadêmica. Farmacêutico, professor universitário, mestre em biotecnologia e doutor em ciência dos alimentos, ele também é inventor e tem prêmios em suas áreas de estudo. Seus mais de 15 livros transitam entre os gêneros da fantasia e da ficção científica. Traduziu a clássica peça de teatro tcheca de ficção científica RUR: Robôs Universais de Rossum para o português, e foi o primeiro no mundo a adaptar essa peça para a versão em prosa. Escreveu o pioneiro romance Amazofuturismo, o primeiro romance do novo subgênero da ficção científica brasileira, definindo seus pilares.

Entrevista

1. Rogério, em seu último livro A Escuridão da Luz você fala sobre inteligência artificial. O que você acha de um livro ser produzido inteiramente por IA?

Rogério: O livro fala disso. As facilidades que surgiram com o advento das inteligências artificiais podem estar atrofiando as potencialidades humanas, transformando muitos em meras entidades pseudo-racionais que não passam de expectadoras da inteligência verdadeira. Já existem muitos livros produzidos inteiramente por IA, e existem pessoas ensinando a produzir tais livros. 

Se alguém escreve um livro usando IA, eu só posso lamentar pela pessoa em si, afinal ela abdicou de usar a imaginação, a criatividade e a inteligência. Como se não bastasse isso, os livros criados por IA são destituídos de alma, ou seja, são cheios de clichês, pouco criativos e básicos demais. Talvez um dia as IAs consigam aprimorar seu estilo e escrever literatura de verdade. E mesmo quando isso acontecer, eu vou preferir as nuances que só um ser humano consegue imprimir no uso das palavras.

2. ⁠Como foi para você traduzir RUR: Robôs Universais de Rossum?

Rogério: Foi um desafio e um prazer. Traduzir uma peça de teatro tcheca de 1920 e trazê-la ao público brasileiro foi desafiante devido ao idioma e da minha preocupação em captar exatamente o que o autor Karel Čapek queria transmitir com a clássica obra de ficção científica. Mas foi também uma alegria porque, enquanto eu trabalhava no texto, me vi atraído para conhecer a vida e a obra do dramaturgo tcheco. Estudei a história dele, as crenças e o momento em que ele viveu. Descobri que Čapek foi um homem de grande sensibilidade artística e social, e que as críticas que ele fazia em seus livros e peças teatrais tinham uma visão de mundo pouco comum, mesmo hoje me dia. Ele era dotado de grande inteligência e senso de humor refinado, por isso me tornei fã dele.

Além de traduzir a peça de teatro, eu transformei RUR em um romance, uma linguagem mais palatável para o público de nosso tempo. Fiquei muito feliz ao descobrir que fui o primeiro no mundo a fazer isso, e a descoberta veio de um estudioso da obra de Čapek, um ator sérvio que mora na Tchéquia e que escreveu o posfácio do meu livro.

O tempo todo em que escrevi, senti a presença e a influência de Čapek.

3. ⁠Na sua opinião, o gênero da ficção científica vem ganhando espaço no mercado literário?

Rogério: A ficção científica sempre foi marginalizada. No entanto, percebo que isso tem mudado gradualmente, e não foi devido aos livros, mas pelas adaptações dos livros para o cinema e a TV. Mesmo assim, o caminho ainda é longo. Digo isso porque percebo que as pessoas que se aventuram a ler ficção científica ainda preferem os temas mais fantasiosos como viagem no tempo e multiversos. É o que se chama soft sci-fi. Quando esses leitores se deparam com o hard sci-fi, que contém termos científicos mais complexos, reais e profundos, a reação costuma ser menos positiva.

Mesmo assim, eu acredito que a popularização da ficção científica é um fenômeno sólido e expansivo.

4. ⁠Rogério você é conhecido por muitos por conta do seu livro Amazofuturismo, nos fale um pouco sobre a obra e o que ele representa para você.

Rogério: O livro Amazofuturismo é um marco na minha carreira, justamente porque muitos autores e estudiosos que me citam, falam que este é, possivelmente, um dos livros que dão início à Quarta Onda da ficção científica brasileira. Em outras palavras, o Amazofuturismo – entre outras obras atuais, algumas delas tratando de regionalismos nacionais – é um gênero da ficção científica que marca uma era em que os autores escrevem a respeito das riquezas que estão aqui, perto da gente.

Comecei a escrever Amazofuturismo tão logo descobri o movimento artístico, que até então era limitado ao mundo das ilustrações. Comecei a escrever um conto, mas as ideias extrapolaram os limites e a obra ganhou ares de um romance, que evoluiu ainda mais. Depois criei o conceito dos Cinco Pilares do Amazofuturismo, que nada mais são do que sugestões a serem seguidas por outros autores para que suas obras literárias não fujam da essência amazofuturista.

Escrevi um conto chamado Amazônia Viva, no qual a flora do Bioma Amazônico e os fundos debaixo da terra formam uma espécie de rede consciente e pensante. Esse conto foi um desafio que me impus, afinal não existem personagens humanos nele, e ele segue os padrões de uma obra amazofuturista.

Em 2022 eu publique Amazofuturismo 2: Primavera Ancestral, continuando a saga, e vem mais por aí. Já estou planejando o terceiro livro da série Amazofuturismo.

5. ⁠Temos algum lançamento para esse ano?

Rogério: Sempre! No momento estou trabalhando em outro livro amazofuturista. Ele é um desmembramento (um spin off) da série Amazofuturismo. Nele, falarei das guerreiras Amazonas, e tudo o que posso dizer é que estudei manuscritos espanhóis originais escritos pelos primeiros navegantes que desceram o Rio Amazonas, e um deles viu e interagiu com essas lendárias mulheres. Esse livro chegará em junho, e eu estou muito animado.


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