Entrevista Jaslin Alexandra


Sobre a autora

Feminista, antirracista, vegetariana, agnóstica, vacinada e contra homo e transfobia. Engenheira de Alimentos não praticante, ex-servidora pública concursada. Apaixonada por literatura e línguas, especialmente a brasileira, escreve histórias que mais parecem a realidade contemporânea brasileira.

Entrevista

 1. Jaslin, qual seu objetivo com a literatura nacional?

 Jaslin: Meu objetivo é meter meus 10 dedos nas feridas dos problemas da nossa sociedade. Meus textos tentam trazer à tona problemas que, muitas vezes, colocamos (ou somos induzidos a colocar) embaixo do conveniente tapete da omissão e do esquecimento.

 2. Você acha que os jovens estão lendo mais? Estão mais engajados com causas sociais?

Jaslin: Não tenho dados, então sendo um achismo mesmo, a impressão que tenho é de que, não só jovens, mas pessoas de todas as idades estão cada vez mais trocando livros por memes; profissionais sérios por influenciadores duvidosos; conhecimento científico por delírios e fakenews. Eu mesma preciso me policiar para não cair nas dezenas de informações, no mínimo, desinformativas que recebo diariamente ou para não perder um tempo excessivo com coisas inúteis na internet. A minha experiência pessoal é de que eu lia muito mais antes dos smartfones e da internet bandalarga. Apesar de ver muito pontos positivos na evolução tecnológica, acho que a humanidade ainda precisa achar equilíbrio e regulamentar o uso dessa ferramenta para reduzir a quantidade de mentiras propagadas. Quanto ao engajamento, ele me parece instantâneo, explosivo e superficial. Há muito engajamento, mas pouca dedicação de longo prazo. A maré de pautas vem em ondas que afogam umas às outras e nada engaja de forma duradoura, até porque nada é esmiuçado a fundo nesse momento em que viramos uma máquina de likes e de posts que duram apenas 24 horas.

 3. Você escreve histórias reais com personagens do nosso cotidiano, qual sua intenção em mostrar a realidade através da literatura?

 Jaslin: A minha intenção é tentar, pela criação de histórias que mostrem a complexidade e o contexto de cada personagem, fazer com que o leitor reflita não só sobre as desprezíveis atitudes de personagens distantes e irreais. Mas fazer com que se reflita sobre pensamentos e ações que, se não o próprio leitor, alguém próximo a ele seja capaz de fazer. Assim tento mostrar o impacto que cada indivíduo tem na vida do outro e, consequentemente, no sistema como um todo.

 4. Você acha que a sociedade como um todo vem mudando negativamente? Se sim, por quê?

 Jaslin: Apesar de quase diariamente receber alguma notícia que me faz duvidar da minha própria posição, racionalmente eu não acho que a sociedade esteja mudando negativamente. Talvez tenhamos essa impressão por termos mais acesso à informação e às coisas horríveis que o ser humano é capaz de fazer. Mas quando paro para pensar friamente, percebo que, na média, avançamos como humanidade. Dando passos para frente e passos para trás e cada parte do mundo no seu tempo, mas mudamos positivamente. Milhares de anos atrás, a escravidão era algo natural na organização das sociedades. Hoje, apesar de ainda se ver casos de exploração análogos à escravidão, isso já não é mais socialmente aceito. Séculos atrás, jovens meninas eram negociadas em troca de bens patrimoniais. Hoje, isso ainda é possível em algumas sociedades, mas na maioria, é, pelo menos, proibido e quando acontece (porque ainda acontece) é um crime a ser punido. Décadas atrás, as pessoas tinham de esconder seus sentimentos ou sua natureza caso não estivessem de acordo com as normas da cisgeneridade e heteronormatividade. Hoje ainda há países onde não há liberdade de se ser quem se é, mas na maioria das sociedades as pessoas, pelo menos legalmente, já podem assumir suas verdadeiras identidades. Ainda há muito a melhorar, mas mesmo na questão do direito dos animais e do direito ambiental, acredito que, a passos de formiga e talvez sem muita vontade, estejamos evoluindo. Mas, sim, tem dias que é difícil acreditar!

 5. O que não pode faltar em suas histórias?

 Jaslin: Minhas histórias são cheias de paralelos com a realidade. Quem acompanha noticiários, literatura, arte e política vai desvendar muitas mensagens “ocultas”. Não se trata só de paralelos dos personagens principais com pessoas que existem fora da ficção, mas também em detalhes de cenas secundárias que aconteceram de fato, como protestos ou reportagens inseridos na história. Além disso, um olhar atento pode encontrar significados reveladores nos nomes dos personagens. Pouquíssima coisa nos meus livros não tem paralelo com a realidade. Tudo isso para montar histórias repletas de crítica social, com algumas pitadas moderadas de bom humor.




 

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