Feminista, antirracista,
vegetariana, agnóstica, vacinada e contra homo e transfobia. Engenheira de
Alimentos não praticante, ex-servidora pública concursada. Apaixonada por
literatura e línguas, especialmente a brasileira, escreve histórias que mais
parecem a realidade contemporânea brasileira.
Entrevista
1. Jaslin, qual seu objetivo com a literatura nacional?
Jaslin: Meu objetivo é meter meus 10
dedos nas feridas dos problemas da nossa sociedade. Meus textos tentam trazer à
tona problemas que, muitas vezes, colocamos (ou somos induzidos a colocar) embaixo
do conveniente tapete da omissão e do esquecimento.
2. Você acha que os jovens estão
lendo mais? Estão mais engajados com causas sociais?
Jaslin: Não tenho dados, então sendo um
achismo mesmo, a impressão que tenho é de que, não só jovens, mas pessoas de
todas as idades estão cada vez mais trocando livros por memes; profissionais
sérios por influenciadores duvidosos; conhecimento científico por delírios e
fakenews. Eu mesma preciso me policiar para não cair nas dezenas de
informações, no mínimo, desinformativas que recebo diariamente ou para não perder
um tempo excessivo com coisas inúteis na internet. A minha experiência pessoal
é de que eu lia muito mais antes dos smartfones e da internet bandalarga. Apesar
de ver muito pontos positivos na evolução tecnológica, acho que a humanidade
ainda precisa achar equilíbrio e regulamentar o uso dessa ferramenta para
reduzir a quantidade de mentiras propagadas. Quanto ao engajamento, ele me
parece instantâneo, explosivo e superficial. Há muito engajamento, mas pouca
dedicação de longo prazo. A maré de pautas vem em ondas que afogam umas às
outras e nada engaja de forma duradoura, até porque nada é esmiuçado a fundo
nesse momento em que viramos uma máquina de likes e de posts que duram apenas
24 horas.
3. Você escreve histórias reais
com personagens do nosso cotidiano, qual sua intenção em mostrar a realidade
através da literatura?
Jaslin: A minha intenção é tentar, pela
criação de histórias que mostrem a complexidade e o contexto de cada
personagem, fazer com que o leitor reflita não só sobre as desprezíveis atitudes
de personagens distantes e irreais. Mas fazer com que se reflita sobre
pensamentos e ações que, se não o próprio leitor, alguém próximo a ele seja
capaz de fazer. Assim tento mostrar o impacto que cada indivíduo tem na vida do
outro e, consequentemente, no sistema como um todo.
4. Você acha que a sociedade como
um todo vem mudando negativamente? Se sim, por quê?
Jaslin: Apesar de quase diariamente
receber alguma notícia que me faz duvidar da minha própria posição,
racionalmente eu não acho que a sociedade esteja mudando negativamente. Talvez
tenhamos essa impressão por termos mais acesso à informação e às coisas
horríveis que o ser humano é capaz de fazer. Mas quando paro para pensar
friamente, percebo que, na média, avançamos como humanidade. Dando passos para
frente e passos para trás e cada parte do mundo no seu tempo, mas mudamos
positivamente. Milhares de anos atrás, a escravidão era algo natural na
organização das sociedades. Hoje, apesar de ainda se ver casos de exploração
análogos à escravidão, isso já não é mais socialmente aceito. Séculos atrás,
jovens meninas eram negociadas em troca de bens patrimoniais. Hoje, isso ainda
é possível em algumas sociedades, mas na maioria, é, pelo menos, proibido e
quando acontece (porque ainda acontece) é um crime a ser punido. Décadas atrás,
as pessoas tinham de esconder seus sentimentos ou sua natureza caso não
estivessem de acordo com as normas da cisgeneridade e heteronormatividade. Hoje
ainda há países onde não há liberdade de se ser quem se é, mas na maioria das
sociedades as pessoas, pelo menos legalmente, já podem assumir suas verdadeiras
identidades. Ainda há muito a melhorar, mas mesmo na questão do direito dos
animais e do direito ambiental, acredito que, a passos de formiga e talvez sem
muita vontade, estejamos evoluindo. Mas, sim, tem dias que é difícil acreditar!
5. O que não pode faltar em suas
histórias?
Jaslin: Minhas histórias são cheias de
paralelos com a realidade. Quem acompanha noticiários, literatura, arte e
política vai desvendar muitas mensagens “ocultas”. Não se trata só de paralelos
dos personagens principais com pessoas que existem fora da ficção, mas também
em detalhes de cenas secundárias que aconteceram de fato, como protestos ou
reportagens inseridos na história. Além disso, um olhar atento pode encontrar
significados reveladores nos nomes dos personagens. Pouquíssima coisa nos meus
livros não tem paralelo com a realidade. Tudo isso para montar histórias
repletas de crítica social, com algumas pitadas moderadas de bom humor.
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